Moda Hip Hop:cultura urbana

Jovens pagam caro para andar na moda hip-hop

Seguir o estilo hip-hop em BH significa gastar mais de R$ 1 mil para usar calças largas, casacões de poliéster, tênis, boné e corrente. Tudo de marca e pago à vista

Marta Vieira – Estado de Minas

O ponto de encontro fica a um lance de escadas do asfalto movimentado do Centro de Belo Horizonte, perfeito exemplo do caos urbano que é motivo de inspiração na música e nas manifestações de protesto de um grupo de consumidores frequentes nas tardes de quinta e sexta-feira e nas manhãs de sábado na antiga Galeria Praça Sete. Eles buscam algo além do passeio em frente às vitrines do primeiro andar e estão dispostos a pagar caro para garantir estilo no baile rap, com brinco e corrente, sem se esquecerem do boné, do casaco e do tênis. A fidelidade ao estilo de vestir pode custar mais de R$ 1 mil, num conjunto de artigos típicos do gosto desses clientes de forte personalidade, mas o significado do dinheiro, aparentemente, não passa da possibilidade de encarnar atitudes respeitadas e admiradas no autêntico movimento hip-hop.

O roteiro de lojas que se especializaram nesse comércio em que a marca já está definida na mente do consumidor, quando ele sai de casa ou do trabalho para ir às compras, envolve pelo menos oito lojas no mesmo corredor do prédio, na esquina das avenidas de maior movimento no Centro de BH, Afonso Pena e Amazonas. É necessário um estoque bem preparado para satisfazer o garimpo de novidades procuradas a cada semana pela maioria de jovens dos 12 aos 20 anos, e até mesmo sem a preocupação de deixar todo o salário no caixa.

O auxiliar de produção Warley Evangelista de Souza, de 18 anos, diz que o importante é a sensação de liberdade e conforto tão preservada pelos adeptos do hip-hop. Em questão de minutos, durante a folga da semana passada, Warley desembolsou R$ 90 por uma camisa e um boné da marca XXL, orçamento que costuma chegar a R$ 250 nas idas habituais às compras. “Já reservo parte do salário. Me sinto bem e confortável no estilo”, afirma. Metade dos 30 anos de vida do vendedor e professor de dança Marcelo Augusto da Silva foram dedicados a entender esse público.

Quem só vê o lado contestador desses garotos metidos em calças e casacos de poliéster extravagantes e de numeração superior aos limites do corpo pode se surpreender com o desejo que eles têm de se enfeitar como o ídolo de todos os tempos, o cantor Michael Jackson, e os rappers americanos que iniciaram legiões de seguidores de uma filosofia urbana e global. “Eles valorizam muito a cultura que identifica esse movimento. Querem liberdade e ficar à vontade”, afirma Marcelo Silva.

A indústria tenta acompanhar o ritmo acelerado desses consumidores. Suprassumo dos bonés que Marcelo vende, as peças de abas retas podem custar R$ 210. Dançarino de rap há oito anos, Marco Túlio dos Santos trabalha no comércio especializado da Galeria Praça Sete desde novembro do ano passado, unindo o conhecimento e a prática no movimento à arte de encontrar o que os clientes pedem. “Muitas vezes, eles idealizam o estilo que veem nos clipes americanos e valorizam a marca porque ela representa um estilo de viver”, diz. Líderes de audiências nas vitrines, os tênis que Marco Túlio oferece têm grande variedade de opções e de preços, que chegam a R$ 520. Por R$ 180, é possível comprar o estiloso modelo usado pelos B.boys – bê do inglês break –, aqueles garotos que dançam na batida da música.

Brilho na boca Nova sensação dos bailes mais concorridos, o grillz, uma espécie de placa coberta de brilhos para enfeitar os dentes, peça produzida nos Estados Unidos, como boa parte dos artigos encontrados no comércio, pode custar R$ 170, feito em aço cirúrgico, cravejado de strass e banhado em ouro. Os adeptos do estilo gastam R$ 300 a R$ 600 a cada 15 dias com os produtos vendidos na loja especializada onde o vendedor Leandro Rodrigues completa o sétimo ano de trabalho. “Se o cliente gosta da mercadoria, com certeza, vai voltar. Quando chega, o vendedor já sabe a marca de seu interesse”, afirma. Vedetes como os skates podem ser comprados por R$ 190 a R$ 220.

Há também raridades que a gerente de loja Edilene Miranda Pereira de Oliveira oferece aos clientes, entre DVDs e livros. Os álbuns de músicas do rapper americano Tupac Amaru Shakur, morto em 1996 aos 25 anos, e a coletânea 100% Favela são bons exemplos na faixa de R$ 35 cada um. Público cativo das lojas, garotos que ajudam na renda da família, com o dinheiro ganho muitas vezes como oficce-boys ou vendedores ambulantes, mantêm outro hábito característico de só pagar as compras à vista. Para o consultor em marketing e moda Carlos Magno Gibail, professor do Instituto Europeu de Design, com sede em São Paulo, esses consumidores são, de fato, mais do que contemporâneos; eles construíram uma tribo.

“O hip-hop está para essa meninada como a Daslu para os ricos”, compara. Na avaliação de Magno Gibail, não há dúvidas de que o comportamento deles é que passou a definir o consumo, não mais o poder aquisitivo isoladamente ou a instrução de cada um. Sem a sofisticação dos grandes centros de compras, a Galeria Praça Sete dá o exemplo do comércio do futuro, que se estrutura em torno do que os americanos chamam de life style (estilo de vida). São lojas destinadas a atender tudo o que determinados clientes adotaram como forma de viver, na contramão da heterogeneidade de produtos dos centros de compras mais conhecidos dos brasileiros A nova tendência chegará, de forma inevitável, ao país, na opinião do consultor.

Publicado em uai.com.br

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