Como uma deusa
A catarinense Patrícia Douat Garcia, 51 anos, conhece os segredos da Victorias Secret. Mais do que isso: ajuda a perpetuar a famosa marca de lingerie e produtos de beleza como um ícone de sensualidade mundo afora. Há mais de uma década, a especialista em comportamento do consumidor faz parte do time de consultores internacionais da Limited Brands, conglomerado americano ao qual pertence a Victorias Secret.
Com métodos de pesquisa amparados na semiótica e na psicologia junguiana, ela e a sócia, Carol Garcia, viajam a América do Sul para garimpar novidades e informações úteis para que a grife se mantenha como objeto de desejo no imaginário das consumidoras. Por obra delas, por exemplo, a Victoria’s Secret desenvolveu uma linha de roupas para ginástica inspirada no que as brasileiras vestem para ir à academia.
Em passagem por Novo Hamburgo, para participar do 7º Simpósio Brasileiro de Biomecânica do Calçado, Patrícia explicou o poder da Victoria’s Secret de levar as mulheres, como ela diz, ao Olimpo:
Donna – Como a Victoria’s Secret se mantém como uma das marcas mais desejadas no mundo?
Patrícia Douat Garcia – A Victoria’s Secret mistura o arquétipo do sexo, por meio de uma imagem de Afrodite, a deusa da sedução, mas se cobre com a tradicionalidade da realeza embutida no nome Victoria, a Rainha Victoria, muito significativa para o público americano. É como se a Afrodite da mulher estivesse escondida na realeza de como se apresenta para o mundo: é por baixo, escondido, que ela carrega toda aquela sensualidade. E eles conseguem ser fiéis a esses arquétipos, nunca entram em contradição nas propagandas, na forma como oferecem a mercadoria. A Victoria’s Secret é um ícone, conhecido no mundo todo como objeto de desejo. Atua diretamente no inconsciente profundo, de apelo arquetípico, e faz com que as pessoas ajam de maneira ilógica: você não precisa ter algo da Victoria’s Secret, mas, se tiver dinheiro, vai comprar. É quando você se sente parte do Olimpo.
Donna – Ir a uma loja da Victoria’s Secret faz parte do roteiro turístico de quem viaja aos EUA. Com todo esse sucesso mundial, por que não abrir lojas em outros mercados?
Patrícia – O dono, Leslie H. Wexner, controla tudo pessoalmente. Sempre se negou a abrir lojas fora do EUA, não precisa disso. Na América do Sul, quase todas as mercadorias da Victoria’s Secret estão nos free shops. Mas, com toda essa globalização, talvez a Victoria’s Secret se espalhe pelo mundo. A gente tem esperança – eu tenho.
Donna – Sem planos de expansão, por que manter consultores em outros países?
Patrícia – Na Victoria’s Secret, estamos falando de bilhões, trilhões de dólares: eles não podem deixar passar nada, têm que saber o que está acontecendo no mundo, que tipo de calcinha se usa no Brasil, na França, quem vende calcinha no supermercado… Têm que estar um passo à frente. Querem saber de tamanhos, materiais, como empacotar, como cobrar, qual o sistema para cobrar… tudo interessa. Não só para eles, para todas as grandes marcas.
Donna – Quando você viaja a trabalho, o que norteia suas pesquisas para mapear o comportamento dos consumidores?
Patrícia – É como uma pesquisa de sociologia. Você sai na rua, olha vitrines, observa como as pessoas se vestem, como se comportam na rua, nas livrarias, nos museus, nos bares… Em Montevidéu, no Uruguai, ninguém usa estampado: 99%, independentemente da idade, usam preto. Então, as lojas têm estampas, mas não adianta colocá-las na vitrine. Tem que colocar a estampa, coberta com um tom liso: mostrar como usá-la como um detalhe.
Donna – Qual a peculiaridade da consumidora brasileira?
Patrícia – A brasileira consome mais moda do que qualquer outra mulher do mundo. Geralmente, as pessoas refazem o guarda-roupa duas vezes por ano. Nós, de três a quatro vezes. Praticamente o dobro. É uma terapia. A maioria das outras mulheres renova o guarda-roupa duas vezes, porque, para elas, terapia é conversar e ver vitrines. Para a maioria dos europeus, o apelo é só o estímulo visual. Já para a brasileira, não basta olhar, tem que pegar, ver se é macio, cheirar… Somos atacados por todos os lados. Então, o bombardeamento é muito maior, e acabamos consumindo mais do que normalmente deveríamos.
Fonte: Zero Hora
