Desfile descritivo – Moda para mulheres cegas
| Aos cinco anos de idade, um tiro de uma espingarda de chumbinho na cabeça – disparado acidentalmente – tirou a visão de Jucilene Braga. Com a cegueira, a passarela onde a menina desfilava com as coleguinhas as roupas das mães também escureceu. O direito de escolha em relação ao estilo, cores das roupas e tipos de sapatos foi, em parte, esquecido. A vaidade, no entanto, nunca saiu da mente e da imaginação.
O evento – que teve a participação de consultoras de moda e estilo, lojistas e de cerca de 200 mulheres cegas – aconteceu nesta semana em São Paulo e foi o segundo no mundo dedicado à moda inclusiva (o primeiro aconteceu no Canadá). “É uma gratidão diferente, de coração para coração, sentir a alegria de muitos que não podiam ver a graça e o estilo da moda”, afirmou Dorina Nowill, fundadora da entidade que leva seu nome e precursora do método braile no Brasil. Durante o encontro, mulheres cegas ou de baixa visão participaram de palestras e workshops que revelaram os segredos da alta costura. Pelo toque, elas conheceram as texturas dos tecidos, acabamentos e modelos que serão tendência para o próximo verão. “A intenção foi trazer estas pessoas para nosso universo, pois sabemos que as informações sobre moda estão distante das pessoas cegas, seja por preconceito ou por pura desinformação daqueles que trabalham no setor”, disse Romy Tutia, coordenadora do curso de Moda das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU). Para a consultora de estilo Milla Mathias – que já sentiu na pele o preconceito, antes de perder 35 quilos e deixar de ser obesa -, o encontro mostrou que esta é mais uma barreira a ser superada na inclusão das pessoas com deficiência. “Estou emocionada, sou uma manteiga derretida e já chorei muito por estar contente em poder passar a muitas mulheres um conhecimento que elas nunca tiveram”. Para vencer a barreira do preconceito, os lojistas da região da Rua Oscar Freire – pólo de alta costura na capital paulista – pretendem capacitar os vendedores no atendimento das pessoas com deficiência. “A Rosângela (Lyra, diretora da Dior no Brasil e presidente da Associação de Lojistas da Oscar Freire) firmou esse compromisso, mas pretendemos levar isso aos shoppings e outros locais de grande concentração do comércio de moda”, disse Ika Fleury, diretora de marketing da Fundação Dorina Nowill.
Desfile Durante o desfile, as três modelos cegas – Maria Regina, Ana Cláudia e Adelaine – flutuaram com suas bengalas na passarela, sem ao menos tropeçar no salto. Elas ainda arrancaram risos das colegas que estavam na platéia ao incrementarem a performance com paradinhas e mãos na cintura. Ana Cláudia ainda mostrou toda sensualidade ao retirar a echarpe que cobria o básico vestido preto. Tudo prontamente narrado à platéia. “Tive a oportunidade de ir ao Fashion Week em 2006, com uma pessoa que me descrevia as roupas, mas saber a textura, entender o estilo e ter os modelos nas pontas dos dedos antes de ouvir a descrição é realmente fantástico”, afirmou a pedagoga Adriana Barsotti, que ficou cega aos sete anos por atrofia do nervo ótico. E é na passarela mais famosa do Brasil que as mulheres cegas querem sentir que o preconceito realmente foi deixado para trás. Com o sucesso do evento, os organizadores já pensam em pleitear junto à direção da São Paulo Fashion Week a adaptação de aparelhos com descrição simultânea – como são feitas as traduções, em um fone de ouvido – dos desfiles para cegos. “É este nosso objetivo. Fazer com que o mundo da moda enxergue estas pessoas como potenciais consumidores que são e não como pessoas dependentes também na hora de escolher uma roupa”, disse Ika Fleury. |
|||
| Redação Terra: Por Plínio Teodoro | |||


