A linguagem da moda: entrevista com João Braga
CLAUDIA: Por que o crescente interesse pela moda?
João Braga: Antes de mais nada, é preciso entender o que é moda, fenômeno quantitativo e conceito amplo que extrapola a forma de vestir. Diz respeito a um desejo compartilhado por parcela expressiva da sociedade em relação a uma música, à dança do momento, aos restaurantes de sucesso, ao gosto e à vigência de determinada época, mas com data de validade para acabar. A efemeridade, ingrediente fundamental da moda, define hoje nosso tempo. Por isso, a moda está mais atual do que nunca e o interesse aumenta, porque ela tem uma linguagem que permite entender o presente.
CLAUDIA: Como nascem as tendências?
João Braga: Vivemos numa época de tendências plurais. Existe um inconsciente coletivo ou arquétipo de um período que orienta as novas correntes comportamentais às quais se ligam as tendências de moda. Mas tendências desfiladas são só propostas. Quem dita a moda é a rua, ao legitimar a proposta. Quando o estilista faz o desfile, não está lançando moda, mas propondo ideias que têm a ver com seu estilo e que poderão ou não encontrar ressonância no desejo de consumo que validará esta ou aquela tendência. Daí defendo a expressão “desfiles de estilo” e não de moda.
CLAUDIA: No atual cenário de crise, o que você acha que acontecerá: mais ostentação para gerar encantamento e desejo de compra ou looks mais comerciais mesmo nas casas sofisticadas?
João Braga: Haverá de tudo. Roupas sempre foram estratificadores sociais. Por suas escolhas, você denuncia sua identidade social. Ao mesmo tempo, a moda tem natureza autofágica: no instante em que você se conecta com uma nova tendência e por meio dela quer se inserir num grupo – e, paradoxalmente, se diferenciar através dele –, uma nova corrente já está surgindo. Não acho que todos buscarão se vestir de forma mais simples. Haverá diferentes inclinações, e aqueles que estiverem na vanguarda já estarão buscando se distanciar dos que estão se aproximando. Aliás, essa é a origem da moda, que tem sua primeira menção num documento do século 15. Já no século 16, a dinâmica da substituição de uma proposta por outra, como conhecemos hoje, era adotada pelos nobres como forma de evitar ser imitados pelos burgueses, que tinham dinheiro, mas não prestígio.
CLAUDIA: Alguns intelectuais afirmam que é muito difícil ser contemporâneo do próprio tempo, intuir o novo quando o velho ainda é quantitativamente maior. Você concorda?
João Braga: Propor o novo nunca é fácil. É tarefa para alguém com sensibilidade especial. Chanel, Dior e Saint Laurent são os maiores exemplos disso na moda. Não só expressaram o que era a moda corrente de sua época mas também anteciparam o que seria desejado num futuro próximo e, assim, ajudaram a construir o zeitgeist (espírito do seu tempo) e não apenas o refletiram. Chanel entendeu que as mulheres passavam por uma emancipação nos anos 1920, conquistando o direito ao voto, entre outros, e deu a elas calças compridas. Dior percebeu nas mulheres do pós-guerra o sofrimento pelas privações e devolveu-lhes o glamour com o new look, em 1947, que definiu os anos 1950. E Saint-Laurent foi o gênio criativo que, além de outros feitos, inventou o smoking feminino e trouxe as etnias para a moda não de forma folclórica, e sim sofisticada, criando o espírito dos anos 1970.
CLAUDIA: E o que a moda conta sobre a contemporaneidade?
João Braga: É curioso: a moda está mais democrática, mas, paradoxalmente, mais complicada. Porque, embora pareça haver muita liberdade, os códigos continuam a existir, só que mais embaralhados. A principal característica da moda contemporânea é o hibridismo, ou seja, ausência de corrente única. O trânsito de ideias entre diferentes correntes de comportamento e, por consequência, correntes estéticas favorece esse hibridismo, que encontra equivalente na arquitetura, com o ecletismo, e na sociologia, com Gilberto Freyre, na mestiçagem. Isto é: nada mais é puro. Uma estética estará sempre impregnada da outra. As releituras, por exemplo, são um código muito presente na moda hoje.
CLAUDIA: Releitura é tema polêmico. Diz-se que desde os anos 1980 não se cria nada novo e estamos fadados às releituras, que se sucedem a cada estação. Isso é fato?
João Braga: A releitura não me incomoda porque está inscrita na sua realidade contemporânea. Ela não é cópia dos looks originais e se distancia deles pela linguagem gráfica e padrão de beleza atual. Assim, não vejo falta de criatividade, mas uma nova forma de criatividade, que consiste não na invenção de novas proporções, e sim nas novas possibilidades de combinar o que existe. Eis o ponto forte desta época. E há três maneiras de fazer isso: cross over é o mix de referências temporais – como elementos dos anos 1980 com outros dos 60; cross culture é a mistura de referências culturais, de diferentes etnias – o maior exemplo foi o inverno 2008, que tratou muito da questão de uma moda multicultural, com citações ao Peru e à África ao mesmo tempo; e hi-lo é a combinação do original e caro com o barato das marcas de fast fashion.
CLAUDIA: Quem você admira na moda nacional?
João Braga: Não desprezando nem desconsiderando outros nomes, para mim a moda brasileira hoje se apoia num tripé. Esse tripé é formado, em ordem alfabética: pelo paulistano Alexandre Herchfcovitch, que ajudou a projetar o Brasil internacionalmente; pelo paraense Lino Villaventura, cujo trabalho dispensa assinatura, ele se reinventa dentro da própria autenticidade, a cada estação, e faz com que você sinta uma experiência estética; e pelo mineiro Ronaldo Fraga, que resgata o que de mais genuíno existe na cultura brasileira, como a cerâmica do Vale do Jequitinhonha.
CLAUDIA: Como você avalia a história da moda no Brasil nos últimos 20 anos?
João Braga: Muito fértil. Este ano, o Brasil completa 23 anos de cursos superiores de moda, o que contribuiu para a profissionalização das carreiras do setor. Some-se a isso a inclusão do Brasil nos calendários internacionais de moda, com o surgimento principalmente da SPFW e do Fashion Rio, que mais tarde abriram caminho para semanas do gênero no país inteiro, e temos um cenário privilegiado de crescimento. Se o Brasil hoje ocupa o primeiro lugar no ranking de países com maior número de escolas de moda, isso significa que lideramos a busca por esse conhecimento. Assim, superamos toda uma tradição francesa de 160 anos. São mais de 140 cursos superiores. Então, temos também toda uma nova geração de professores lecionando na área que precisa de uma fundamentação teórica. Hoje, o assunto não é mais encarado de forma leviana, como superficial ou dispensável, e sim como uma área de produção de conhecimento e de produção de divisas.
Fonte: Revista Claudia

